O conhecimento, alicerçado na ciência, na tecnologia e na informação, é considerado hoje o fator de produção por excelência, determinante do progresso e da riqueza das nações. Tanto é assim que, de acordo com o Institute for the Future, 50% a 60% do PIB das economias mais avançadas do mundo já advêm de atividades relacionadas ao conhecimento. No Brasil, essa perspectiva pode ser considerada bastante desafiadora, uma vez que implica em avançarmos para um novo estágio do desenvolvimento, não apenas em sua dimensão econômica – levando o conhecimento a todos os setores produtivos –, mas também em sua dimensão social, estendendo o conhecimento a todos os segmentos da sociedade, inclusive às classes de baixa renda.
Em ambas as dimensões, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) assumem um papel fundamental, dada a sua importância no processamento e disseminação de informações. No âmbito social, especialmente, o Estado aparece como um ator indispensável, a quem cabe uma ação positiva em prol da repartição desse elemento essencial do poder político e econômico: o conhecimento.
Partindo exatamente dessa premissa, o governo fluminense tem se debruçado nos últimos meses sobre o estudo de diferentes iniciativas para tornar a Sociedade do Conhecimento Digital uma realidade para os cidadãos do Rio de Janeiro, preferencialmente em um intervalo de tempo que seja marcado pela brevidade. Conseguimos alguns avanços e, agora que nossos passos parecem um pouco mais definidos, julguei conveniente compartilhar com os leitores, nesta primeira coluna do ano 2008, um pouco dessa expectativa que nos move como uma mola propulsora rumo a um desafio encantador e, antes de tudo, fundamental.
Para quem não tem muita intimidade com o assunto “Economia do Conhecimento”, vale esclarecer aqui, rapidamente, alguns conceitos relevantes à compreensão deste tema. Não é novidade para nenhum de nós que estamos vivendo uma era de total revolução nos modos de produção. Cada vez mais, os processos de automação avançam de forma irreversível sobre os procedimentos industriais, administrativos e comunicativos, conectando-os às redes cibernéticas mundiais e padronizando-os segundo a racionalidade. Neste contexto, a subjetividade e o conhecimento alcançam um papel de grande destaque – e por que não dizer, essencial – no modo produtivo moderno, uma vez que constituem o seu diferencial e sua força central.
Ikujiro Nonaka define esse fenômeno com muita propriedade quando diz que “em uma economia onde a única certeza é a incerteza, apenas o conhecimento é fonte segura de vantagem competitiva”. Isso significa que os principais meios de produção e troca da atualidade, ou seja, de relação econômico-social, são o conhecimento, a criatividade e o talento intelectuais. Já há consenso em torno da máxima de que é no conhecimento que repousa o nosso futuro e, como bons visionários, não podemos fugir dessa aposta que, pouco a pouco, está se tornando mundial.
Pois bem, pensando a Economia do Conhecimento sob a ótica da vida digital, percebemos com clareza que sua lógica está centrada na abundância, diferentemente da lógica da economia atômica, que é a da escassez. E isso muda tudo, pois as novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) transformam, aumentam e exteriorizam a inteligência e grande parte das funções cognitivas humanas, tais como a memória, o raciocínio, a imaginação, a percepção e compreensão de mundo.
Como diz Pierre Lévy, o ciberespaço abre campos de conhecimentos totalmente novos. São novas formas de acesso à informação, propiciadas pela livre navegação e pela livre associação e, sendo assim, criar caminhos para a constituição de uma verdadeira Sociedade do Conhecimento Digital torna-se uma tarefa árdua.
Tal complexidade, no entanto, em vez de nos assustar, nos motivou. Conscientes da capacidade do coletivo anônimo criativo e sabedores de que é sobre esta capacidade que iremos formar a base da sociedade do futuro, estamos nos organizando com cautela para planejar o ingresso dos cidadãos fluminenses em uma nova era. Sem querer plagiar o famigerado slogan de final de ano da maior emissora de TV brasileira: para o Estado do Rio de Janeiro, literalmente, “o futuro já começou”.
Desde sempre, nossas iniciativas de inclusão digital, governo eletrônico, infra-estrutura tecnológica e modernização da gestão pública tiveram como principal objetivo o desenvolvimento econômico e social. Sempre trabalhamos com a premissa de que as TIC’s não são um fim em si mesmas, mas sim um suporte para que a informação exista verdadeiramente como um bem público, a comunicação como um processo participativo e interativo e o conhecimento como uma construção social compartilhada.
Havia, entretanto, a necessidade de se construir uma base concreta de sustentação desse sonho que agora vemos tão de perto. Querendo ou não, os investimentos em infra-estrutura eram necessários, demorados e dispendiosos. Hoje, com a Infovia.RJ batendo à porta de todos os municípios do Estado do Rio de Janeiro, com seis cidades fluminenses já iluminadas por tecnologias wireless e com um projeto bem estruturado para universalização da banda larga em todo o nosso território, podemos dizer que estamos prontos para dar o grande passo que sempre foi a nossa verdadeira meta: fazer do Rio de Janeiro um Estado do Conhecimento, moderno, transparente, ágil, democrático, socialmente responsável e economicamente bem-sucedido.
Estamos, portanto, indo além dos cabos, redes, antenas, bits e bytes. Nosso foco daqui por diante será cada vez mais o conteúdo digital. Estamos estudando maneiras de estimular localmente a produção de conhecimento nas comunidades já beneficiadas por nossos projetos de inclusão digital, acreditando que esta seja a melhor estratégia para incentivar o seu crescimento socioeconômico. Nas localidades ainda não contempladas, buscamos atrair parceiros na área de conteúdo desde o início das atividades, com o mesmo objetivo.
Internamente, temos hoje um grupo de trabalho selecionando possíveis cursos a serem oferecidos em cada local onde já estamos presentes, seja com os 72 Centros de Internet Comunitária em funcionamento ou nas seis cidades digitais já implantadas. A secretaria estadual de Cultura – cujo programa de governo prevê um crescimento de 30% do PIB fluminense a partir de projetos de conteúdos digitais –, o Serpro e o programa de inclusão digital do Paraná (Paranavegar) são exemplos de parceiros em potencial, com os quais já estamos fazendo contato.
A idéia é oferecer à população tanto cursos ligados ao mercado da Economia Digital (de programação em Java e PHP, por exemplo) quanto de conteúdos mais específicos, voltados ao suporte da atividade econômica principal de cada cidade, como a agricultura ou o turismo.
Outra iniciativa que compõe este cenário e merece destaque: seguindo o modelo desenvolvido em Pernambuco junto ao Instituto Telemar, o governo fluminense também está articulando parceria com a Oi Futuro e com duas empresas privadas dos ramos de TI e Telecom para criar uma escola pública experimental na área de convergência digital, cuja grade curricular tradicional será complementada por disciplinas ligadas à telefonia e à produção de conteúdo para TV Digital.
Como se vê, não são poucas as iniciativas já em curso. Outras idéias também não faltam e, no tempo certo, todas ganharão corpo. O otimismo é contagiante e a experiência do caminho trilhado até aqui nos dá a certeza do êxito. Que venha 2008, que nosso trabalho seja recompensado e nossos sonhos se realizem!
*Publicado no site Computerworld.com.br em 02/01/08.